Em nossa Doutrina, os hinários compõem o principal acervo de ensinamentos e o núcleo do corpo doutrinário da nossa Tradição. O fato dos ensinos espirituais serem transmitidos desta forma eminentemente musical remonta aos seus primórdios. Para ser mais exato, desde momento que o Mestre Irineu recebeu, naquela noite de lua cheia, das mãos da Rainha da Floresta, a letra e a música do seu primeiro hino “Deus te salve ó Lua branca.”

Segundo se conta, ele ainda hesitou em solfejar os versos da primeira estrofe, sendo porém incentivado neste sentido pela sua amiga “Clara” que era como a rainha se apresentava para ele. Talvez devamos a este começo tão peculiar o fato de que a nossa Doutrina tenha se tornado tão musical e o nosso trabalho tão sublime. Como diz o hino do nosso irmão Francisco Fernandes Filho, Tetéo: “nosso trabalho tem força e é profundo/não tem igual ele é o maior do mundo.”

Quando penetramos dentro da força do Santo Daime pelos caminhos que os hinos nos levam, temos uma vivência interior profunda que se une a este espetáculo de rara beleza dos Hinários. É como se os hinos se transfigurassem e se tornassem veículos de um conhecimento de outra forma vedado à nossa consciência ordinária. Mais ainda: eles nos alertam e mobilizam para a percepção do Reino que existe dentro de nós, deixando ainda um rastro de ouro e prata fina, um sentimento de conforto espiritual e prazer estético. Mesmo com suas rimas pobres e sintaxe às vezes imperfeita, mesmo com suas e melodias na maior das vezes de grande simplicidade, como eles se prestam a induzirmos num verdadeiro êxtase! Seguindo suas palavras e as visões que a acompanham, podemos acessar os tesouros da grande consciência cósmica e a memória da sabedoria akhásica1 .

Este mecanismo estruturante do nosso corpo doutrinário também instaura uma verdadeira revolução democrática dentro da Doutrina. Pois a principio (pelo menos na vertente do Santo Daime), “nesta igualdade todos tem os mesmos direitos”, como diz o decreto do Mestre Irineu. O recebimento dos hinos está aberto a todos mediante o dom de cada um. E ao contrário do que poderíamos pensar, isto em nenhum momento cria um embaraço, descontinuidade ou contradição para a consolidação e evolução do corpo doutrinário. Pelo contrário, o fortalece.

Isto por que, sendo um mecanismo espiritual por excelência, é muito difícil afrontar com a verdade e a força dos ensinamentos que já estão codificados a partir das experiências dos mestres fundadores e que os hinários mais antigos já trouxeram. Podem ocorrer pequenas variáveis e ajustes e até mesmo atualizações, novos enfoques e revelações. Mas dificilmente ocorrem oposições, fraturas e colisões, ou palavras que neguem as verdades essenciais das revelações dos Hinários principais, assim como os princípios espirituais e éticos subjacentes.

Quando acontece alguma coisa, por mínima que seja neste sentido, ainda assim, para quem canaliza ou recebe um hino, não basta simplesmente recebe-lo. Principalmente se o canal de recepção não estiver aberto e bem conectado com a fonte espiritual e a experiência mística que o deu origem. Hinos não são compostos mas também nem todos são inteiramente lampejos mediúnicos. Dependendo do caso, eles podem ser recebidos de diversas maneiras: dentro da vivência da miração; no rescaldo da Força e por intuição em estado meditativo.

Além disto eles precisam ser provados por aqueles que o recebem. A mensagem de um hino, a força de um hinário se baseia principalmente no testemunho que cada aparelho receptor e participante dá na sua própria vida dos hinos que recebe e ou acolhe. E se esta relação não existe ou não é coerente, a sua aparente beleza se esvai dentro da Força e eles não são apreciados, confirmados e instruídos. Ou seja: não são assumidos pela irmandade.

Um outro aspecto que também contribui para a consolidação da linha doutrinária é eminentemente espiritual e está na própria segurança do aparelho receptor, sua confiança e certeza de que trata-se de uma mensagem canalizada e não um mero capricho, repetição ou eco de um outro hino. Podemos até mesmo relembrar a história do Mestre Irineu hesitando em solfejar seu primeiro hino e o encorajamento da Rainha neste sentido, como sendo uma bela metáfora para explicar isto. Diz o hino do padrinho Alfredo: “É preciso confiar em si mesmo para ser pela doutrina resguardado”. E mais ainda para seu porta voz. Se houver dúvida na verdade da conexão obtida, não é ainda um hino. Mas se a vivência é clara para quem recebe e depois para quem compartilha o hino, ele termina se firmando. Por isto a voz do verdadeiro hino é considerada por nós como a linguagem escolhida pelo pano espiritual para transmitir seus ensinamentos.

É importante frisar que o mestre, naquele remoto dia lá pelos idos de 1912, não apenas recebeu o que seria o primeiro hino da doutrina em honra à sua padroeira mas também a forma de como a doutrina se desenvolveria e seria transmitida até os dias de hoje.

O sistema funciona desta maneira: os aparelhos firmados e afinados recebem as melodias e as mensagens que por sua vez serão reconhecidas e assumidas por toda a irmandade. A força e a verdade da miração e da passagem que deu origem àqueles hinos tornam a experiência singular de um aparelho receptor em uma obra coletiva. No contexto do ritual, o Hinário é um balé cadenciado e coreografado, como uma forma de arte que une música e dança, abertura de consciência, firmeza, resistência e tudo que precisamos para atravessar toda a noite, alçar nossa consciência até as alturas espirituais. O cume da perfeição exigido para entrar no celestial.

Além disto tudo, o reconhecimento do valor da mensagem do hino se traduz pelo interesse no estudo e na prática do mesmo, que em certo sentido é assumido como nosso e de todos. Como dizia o padrinho Mário Rogério, que nunca tinha recebido hinos (apenas ofertados): “Todos os hinos são meus, por que eu zelo por todos eles!” Ele dizia também que dentro da miração já tinha visitado a Casa dos Hinos no Astral. Nesta casa, os hinos estavam guardados em grandes estantes cheias de gaveta e cada um tinha uma luzinha que brilhava com cores diferentes. Os guardiões circulavam pela casa. Tinha um setor dos hinos já recebidos e de outros ainda por receber.

A força da corrente dos hinos e do Daime são garantias de uma experiência sadia e agregadora em termos psíquicos. A viagem espiritual e astral não pode ser bem traduzida por palavras mas gera um intenso estímulo para a prática da verdade. O bailado e o canto formam uma síntese unificadora. Celebração da Vida em todos os níveis. A vida da irmandade é uma constante liturgia: trabalhos espirituais, plantios, colheitas, festas, aniversários, reuniões, refeições, mutirões.

Os hinos guiam a nossa jornada ritual. Alertam, encorajam, aconselham e nos instruem para que possamos realizar nosso mergulho interior, sempre dentro da proteção da corrente.

Diz Padrinho Alex: “Uma das primeiras coisas que chama a atenção é o fato da Doutrina do Santo Daime ser absolutamente musical.” A tal ponto que poderíamos dizer que a música é parte integrante dela, do cerne dos seus ensinamentos.

A música assume um caráter pedagógico mas sua função não se resume em sustentar um corpo doutrinário discursivo e sim, através do poder de sua própria vibração, abrir nosso espírito para esse sentimento inefável de bem-aventurança que só ocorre quando a consciência se funde à existência

Os hinos ocupam um lugar de destaque na Doutrina do Santo Daime, ao lado da bebida sacramental. É através dos hinos que todos recebem a orientação necessária para navegar na força do Daime durante a sessão. Por uma estranha sincronicidade, eles parecem, à luz do Daime, corresponderem as nossas mínimas necessidades durante a viagem astral da miração.

Os hinos podem ser portanto: lições preciosas para aqueles que os recebem; testemunhos de graças e curas recebidas; chamadas das entidades protetoras e guias espirituais e instruções para serem consideradas por toda a irmandade.

fonte: www.santodaime.org (Céu do Mapiá – AM)

1 Memoria akhásica, Segundo a teosofia é o registro no éter de tudo que ocorre no universo.