No caso das doutrinas relacionadas com a Ayahuasca/Santo Daime, ocorre o mesmo que com as demais tradições. Iniciaram-se confinadas no seu habitat local. Floresceram e se modelaram em contexto regional de acordo com o que dispuseram seus fundadores e guardiões, quase sempre mestres de grande conhecimento, carisma e reconhecimento por parte dos seus seguidores.

A Doutrina do Mestre Irineu é ainda uma criança de 100 anos, se formos consideramos o recebimento da Lua Branca pelo Mestre Irineu como sendo seu marco inicial. Sua forma original já é um exemplo desta evolução adaptativa de uma tradição milenar anterior (no caso a ayahuasca) aos novos paradigmas culturais e civilizatórios do século XX.

A grandeza espiritual do Mestre Irineu foi por em contato esta bebida sagrada e sua cultura nativa com a cultura mestiça, cabocla e finalmente com a cultura branca, cristã colonizadora. Com isto operou este resgaste e ao mesmo tempo uma síntese prodigiosa. Que hoje, menos de um século depois, espalhou-se novamente por todos os continentes, com sua mensagem de sabedoria e amor universal1.

A doutrina do Mestre já estava esboçada pelo final dos anos trinta e início dos anos quarenta. Mas foi no final dos anos cinquenta para os sessenta que ela atingiu sua maturidade. Depois da passagem do Mestre, aconteceram as primeiras divisões (ou desenvolvimentos, dependendo do ponto de vista). Sendo que as de Sebastião Mota e Francisco Fernandes (Tetéo) foram as mais importantes.

O seguimento original do trabalho do Mestre foi mantido de forma ortodoxa no CICLU-ALTO SANTO. No entanto, à sombra da árvore sombreira e frondosa que foi o mestre Raimundo Irineu Serra, nasceram muitas novas ramas. E todas elas julgam ter também alguma contribuição para dar ao seu desenvolvimento. Não temos aqui a pretensão de afirmar qual é a melhor nem medir quem é mais tradicional, original ou fiel à letra e ao espírito dos ensinos do Mestre Irineu. Acreditamos que todas têm seus méritos e estão seguindo seu próprio caminho evolutivo.

O que nos interessa mais aqui é a linha espiritual da ICEFLU, nossa igreja. Seu corpo doutrinário está assentado de forma consistente nos ensinos e preceitos do Mestre Irineu, seu hinário do Cruzeiro e de seus companheiros. E também no desenvolvimento dado pelo Padrinho Sebastião Mota, seu patrono e fundador. Chamamos a nossa linha de Doutrina do Santo Daime. Por isto compreendemos a junção da Doutrina do Mestre Irineu com os ensinos do Padrinho Sebastião.

É bom frisar que no nosso caso, existe um diferencial muito importante, pois o Padrinho Sebastião não foi apenas um entre os discípulos que se destacaram a partir do contato com a espiritualidade do Mestre Irineu. Ele já chegou ao Mestre com uma sólida bagagem espiritual anterior de médium, curador e vidente. Mesmo assim reteve a mesma base doutrinária do Mestre Irineu, de quem, mesmo discípulo, gozava de sua estima e sua confiança. Algum tempo após a passagem do Mestre, ele e seus seguidores passaram a realizar seus trabalhos na sede por ele criada na Colônia Cinco Mil.

Os desenvolvimentos posteriores foram acontecendo pouco a pouco. O primeiro e mais importante deles foi abertura de espaço para o trabalho mediúnico. Isto também não era uma novidade nos tempos do Mestre, se considerarmos a evidente familiaridade dele com os caboclos e seres da floresta em seu hinário. Mas também é igualmente certo que apesar disto, ele nunca incorporou no seu desenho ritual um espaço próprio para as atuações, limitando-se ao uso de algumas chamadas em alguns tipos de trabalho e a seu critério2.

Já Sebastião Mota, com sua formação de médium anterior a sua própria adesão ao Santo Daime, não viu motivo em não dar este passo. Tanto mais que, dentro da sua comunidade, esta demanda surgiu, levando-o a achar necessário abrir este tipo de trabalho. O resultado disto foi a criação de uma casa (a Estrela) para a doutrinação e caridade espírita. Porém o núcleo dos seus ensinos continuou centrada no uso sacramental Santo Daime e na doutrina do Mestre, incluindo a inspiração e a influência do Circulo de Comunhão do Pensamento e a vasta literatura de apoio difundida por esta organização espiritualista e esotérica.

A maior prova disto está em seu próprio hinário, que em alguns pontos dialoga e desenvolve muitas questões iniciadas e anunciadas pelos hinos do Mestre Irineu. Depois da passagem deste, seguiu seu próprio caminho, com o beneplácito do próprio Leôncio Gomes que ficara a frente do Alto Santo. Levou para a sua nova agremiação espírita não apenas o zelo aos hinários, a farda, as insígnias, como também a fé no sacramento que aprendeu a fazer como um dos principais feitores do próprio mestre. Ele se referia ao Santo Daime como a “água da vida”, aludindo às palavras da escritura sagrada. Levou ainda consigo fruto da intimidade que manteve com seu padrinho Raimundo Irineu Serra, uma inexorável convicção de que recebera das mãos deste sua missão espiritual e que ela deveria ser erguida no Amazonas. Motivo que o fez, muitos anos depois, sair do Acre em busca do seu destino.

Uma nova ênfase foi dada à cura, caridade e iluminação espírita. Através do trabalho de Estrela e posteriormente os de São Miguel e Mesa Branca, reservados para o desenvolvimento mediúnico. Os calendários também sofreram modificações na medida que os hinários se diversificaram, assim como o reconhecimento de novos patronos. O Céu do Mapiá como “capital do Santo Daime”, é um local que se tornou um centro de peregrinação e devido a isto tem um calendário de trabalho bem mais intenso do que as demais igrejas. Já nas igrejas filiais temos uma flexibilidade para realizarmos um calendário dentro da realidade dos grande centros urbanos.

Se existem algumas pequenas variações no que diz respeito à execução dos hinários da base da Doutrina, isto não deixa de ser natural, pois é praticamente impossível reconstituir uma versão cem por cento pura dos mesmos, se é que algum dia tal coisa existiu.

Uma outra modificação importante, que foi feita já no tempo do Padrinho Alfredo foi o formato do salão que passou de retangular para hexagonal. A partir daí houveram também outras pequenas mudanças na constituição e acesso às filas, flexibilização no uso dos maracás, na forma e no ritmo dos hinários, etc. Abrandou-se um pouco no bailado o rigor e a disciplina marcial dos primeiros tempos.

Porém isto tudo na verdade são evoluções que, ao nosso ver, não afetam os fundamentos da doutrina. O sentido do trabalho, a contrição e o preparo necessário para comungar o Santo Daime, a atitude de interiorização e entrega para lidar com a Força e a Miração, o papel do “do professor dos professores” atuando no estado de expansão de consciência, a sabedoria para lidar com as visões e as passagens, a necessidade de trazer estas vivências e lições do trabalho para a vida prática, de dar o testemunho dos aprendizados da doutrina no seu dia a dia, na sua família e na vida social, tudo isso é rigorosamente o mesmo. E estes são realmente os fundamentos, que devem ser preservados, os landmarks que nos referimos no início.

Outro aspecto a destacar foi sem dúvida a grande abertura do padrinho Sebastião para ampliar o seu conhecimento sobre outras linhas. O que o levou também a experimentar outras plantas de poder e ver em alguma delas, um grande proveito espiritual do ponto de vista da cura, da mediunidade e do autoconhecimento.

Também é relevante na nossa ritualística a evolução que houve no feitio da bebida sacramental. Não apenas no ritual como também no aproveitamento e no resultado da preparação da bebida sacramental. Talvez o feitio seja o exemplo mais evidente de como um fundamento deixado pelo Mestre Irineu obteve um progresso positivo através do padrinho Sebastião e posteriormente pelo Padrinho Alfredo. O desenvolvimento dado por eles fez com que o preparo da bebida sacramental ganhasse mais em refinamento espiritual, a ponto de se tornar um trabalho iniciático dos mais importantes e profundos para aqueles que deles participam, sejam homens ou mulheres.

Tanto os cuidados de limpeza, higiene, a bateção ritmada com o canto dos hinos, a concentração mental e o silêncio, o estudo de unir o trabalho físico exaustivo com a miração e a necessidade de alto nível de consciência e de atenção, os mistérios borbulhantes fervendo na panela, o sentido do tempo, das medidas, dos líquidos e dos apuros, a correlação entre o estado de nossa mente e cada etapa do processo do trabalho material, tudo isto faz sem dúvida do feitio uma autêntica escola espiritual e de alquimia interior.

Da mesma forma que tudo isto se desenrola ao nível astral, o estudo acurado da ciência dos cozimentos, suas combinações e recombinações nos trouxeram um conhecimento capaz de produzir uma bebida sacramental de diversos graus que, além de sua qualidade e luz espiritual, possibilita também um aproveitamento muito maior do material empregado, contribuindo para a sustentabilidade da produção da nossa Igreja e a preservação da nossa floresta.

fonte: www.santodaime.org (Céu do Mapiá – AM)

Alex Polari de Alverga

1 Um dos principais responsáveis por esta difusão e universalização da doutrina do Mestre coube a um dos seus discípulos, Sebastião Mota de Melo, também chamado de Padrinho Sebastião.

2 Talvez por este motive quando se deparou com esta demanda mediúnica na sua própria irmandade, preferiu liberar oDaniel Pereira de Matos para realizar por conta própria este tipo de trabalho. D. Percília relata que nos trabalhos de exorcismo (Cruzes), às vezes podiam ocorrer alguns tipos de atuação