Todas as doutrinas espirituais têm os seus fundamentos a serem preservados. Os maçons chamavam estes princípios inquestionáveis de “landmarks.” No entanto, no decorrer da evolução das tradições espirituais, quase sempre acontecem alguns desenvolvimentos. Isto por que, dentro da sua dinâmica, podem ocorrer interpretações diversas na forma responder à novas demandas que se colocam em outros contextos espirituais, sociais e culturais.

As doutrinas espirituais de um modo geral, assim como toda a sua textura ritualística e cerimonial são portas de entrada que motivam homens e mulheres a adentrarem pela busca de uma perspectiva espiritual para as suas vidas. Elas se acham influenciadas pela evolução do tempo, da cultura e dos paradigmas da condição humana que a regem, sintetizadas na tríade metafísica: Quem somos, de onde viemos para onde vamos?

Todas estas formas e desenhos rituais que as tradições nos legaram têm o mesmo objetivo, ou seja: criar um contexto sagrado para que, através do trabalho espiritual, cada um possa responder estas questões essenciais que a consciência se indaga quando aprisionada e identificada com a forma humana. É neste espaço que avançamos na tentativa de descobrir as raízes do nosso verdadeiro Ser, que estão além do nome e da forma. Esta nostalgia da alma de retornar à sua origem é o que verdadeiramente nos atrai à religião , palavra que vem do latim re-ligare e significa reconectar com a nossa essência interior, o nosso espírito e com a sensação maravilhosa de sermos parte desta Totalidade feita de consciência, existência e beatitude.

Por sua vez, fatores culturais, históricos, geográficos, de língua, raça, etc, determinam, no curso das gerações, o fluxo de quem passa por cada um destes portais de entrada. É por isto também que existem tantos portais para atender a esta imensa diversidade de demandas espirituais. Talvez por este mesmo motivo foi que o Mestre Jesus prometeu que iria preparar para seus seguidores muitas moradas no céu e não apenas uma. Sua Santidade o Dalai Lama também costuma enfatizar a importância desta diversidade dizendo que um restaurante que serve um único prato não agradaria a todos.

No decorrer de décadas e mesmo séculos, estas tradições que conseguem atender às novas demanda espirituais dos seus fiéis, são aquelas que mantém um viço e frescor que o tempo não consegue corroer. Mas tudo isto não é algo fácil e isento de riscos. Os maiores riscos são quando as inovações introduzidas visam contemporizar com fatores seculares ou mesmo adular o gosto dos praticantes. Igualmente nocivo pode ser também o conservadorismo que, na ânsia de conservar uma suposta pureza original, se congela no tempo e termina sufocando o conteúdo em nome da forma, ou seja se fossilizando!

Um exemplo bem sucedido de evolução dentro da história está na tradição sufi, um ramo esotérico surgido no islamismo há cerca de 1200 anos e que soube (pelo menos algumas das suas escolas) conciliar seus princípios universais e ensinamentos com os mais distintos contextos, credos e culturas. O mesmo pode se dizer da coexistência e grande diversidade de pontos de vista dos grandes místicos cristãs, da Kabalah judaica e das variadas escolas filosóficas do hinduísmo e do budismo. Sempre que o verdadeiro misticismo se estabelece, ele consegue este equilíbrio, fugindo dos rigores e dos perigos da institucionalização através da flexibilidade da realização pela via da experiência.

Quais seriam as causas e a lógica que promoveriam tais transformações? Sem dúvida poderíamos explicar isto de diversos modos, à luz das ciências sociais. É difícil vê-las atuando no presente, pois elas precisam de uma certa distância no tempo para serem sentidas. Mas mesmo que tenhamos consciência de quando, onde e por que elas atuam, nem sempre podemos controlar o processo e este é seu risco inerente, aliás, presente em todos os fenômenos desta ordem. Assim é que nos ensina a história das tradições espirituais sejam elas grandes ou pequenas, influentes ou insignificantes: uma sucessão de continuidades e descontinuidades e em alguns casos, rupturas.

Uma vez que as doutrinas formam um corpo já coeso e homogêneo, se expandem pela mão de seus principais continuadores e difusores, interagem com outras situações e visões de mundo. Os mestres fundadores partem, deixam seus princípios e normalmente uma sucessão de linhagem bem ou mal resolvida. Dentro deste quadro, mecanismos institucionais são criados para preservar estes princípios que foram legados. E é aí que começam os problemas…isto por que tantos líderes quanto seguidores, como seres humanos que são, estão sujeitos às muitas vicissitudes da condição humana e das mazelas emocionais e políticas dos movimentos religiosos institucionalizados.

fonte: www.santodaime.org (Céu do Mapiá – AM)