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Mestre Irineu

Biografia – Mestre Raimundo Irineu Serra

Raimundo Irineu Serra nasceu,  em São Vicente Ferrer no Maranhão no dia 15 de dezembro de 1892, filho de Sancho Martinho Serra e Joana de Assunção Serra, uma católica devota. De seus pais temos poucas informações. Sabemos que seu pai fora escravo em um grande engenho de cana de propriedade de um grande coronel da região chamado Mariano de Matos, daí o seu sobrenome. Sua certidão de batismo indica porém que teria nascido dois anos antes, 1890 portanto. A origem do nome bem poderia ser alguma devoção que o Padre José Bráulio, que realizou o batistério na igreja construída pelos dominicanos , nas cercanias do igarapé Cajapió, por São Irineu, o grande mártir e doutor da igreja do século II. Apesar de pura especulação poética, bem poderia ser uma coincidência auspiciosa, na medida que São Irineu  recebeu influência direta das comunidades ligadas  ao apostolo João, através de São Policarpo, discípulo do mesmo. E alguma coisa na missão do depois mestre Irineu nos remete aos anúncios feito no 4º evangelho sobre o Paráclito, o Consolador Prometido, o próprio Santo Daime por ele descoberto.

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Irineu era o primogênito dos seis filhos do casal Sancho e Joana. Os outros irmãos eram Dico, Verônica, Matilde, Maria e Nhá Dica, a caçula. Consta que quando o pai morreu o padrinho de Irineu , Paulo Serra, irmão de sua mãe, assumiu a educação do menino. Irineu, como filho mais velho também teve que assumir algumas das responsabilidades do pai em relação `a casa e aos irmãos mais novos. Consta que Irineu viveu com a família em São Vicente Ferrer até a idade de 12 anos, portanto, até 1904. Neste ano ele passou a residir em São Luís, a capital do Estado.

Não temos muitas informações sobre a sua infância e adolescência. Ele contava que, quando menino, quando fazia  alguma coisa errada era disciplinado em sonhos e visões, sendo obrigado a ficar ajoelhado em cima do arroz em casca num grande paiol. E que anos depois quando teve a visão de Clara ela lhe confirmou ser a causa daqueles corretivos.

Existem alguns relatos de histórias da sua mocidade sobre sua participação nas brincadeiras e folguedos de rapaz. Ele era um jovem vigoroso, com quase 2 metros de altura, corpulento . Inspirava confiança e tinha grande  capacidade de liderança. Pelo visto era também  muito  “arteiro”. Segundos os relatos colhidos , Irineu esteve “noivo para casar” de uma moça chamada Fernanda, filha do Sr Candido Alípio. Ele enfrentava uma certa resistência da mãe contra este casamento por ela achar que ele era ainda muito jovem para contrair tal responsabilidade. Um dia ele teria ido  aconselhar-se com seu padrinho Paulo Serra,  que lhe teria dito: “-Irineu, um homem para se casar precisa antes dar uma volta no mundo, saber quanto custa isto e aquilo, para depois garantir que pode sustentar uma família, etc.”

Mais ou menos por esta época teria se metido numa grande confusão durante um tambor de crioula. Ele tinha sido proibido pela mãe de frequentar este tipo de festa onde havia atabaques, batucadas e muita cachaça. Mas assim mesmo ele foi, na companhia de seu primo Casimiro, que era quase tão grande quanto ele. E se envolveram numa grande pancadaria. Inventaram de cortar com um terçado todos os punhos das redes do dono da casa, derrubaram as portas, a maior confusão. A mãe foi avisada do ocorrido já tarde da noite e foi pedir ajuda ao irmão Paulo, que Irineu muito respeitava.

No outro dia, pela manhã cedo, Paulo  foi até a casa da irmã e foi logo perguntando para ela aonde estava Irineu. Quando ele se apresentou, foi recebido com três chicotadas de rebenque na cabeça. Depois que o padrinho se retirou, segundo o depoimento de Aprígio Antero Serra, seu primo, “- ele pegou uma calça de saco, uma camisa de brim alfacim, colocou tudo dentro de um saco de trigo e ganhou o mundo; só reapareceu 46 anos depois”.

Talvez a idéia de viajar já estivesse presente no espírito de Irineu, influenciado pelos conselhos do tio e padrinho. Mas sem Duvida foram as 3 chicotadas que se tornaram o argumento decisivo que o impeliu em busca do seu destino. O que o levou inclusive, depois dos quase 50 anos, quando voltou’a sua terra natal para rever a família, que ele agradecesse ao tio justamente por isto.

Mas no ponto que estamos, o jovem Raimundo ainda não tinha nenhuma noção da grandiosidade do seu destino. Certamente este já influía de alguma maneira, sem que ele suspeitasse. Nem que fosse no desprendimento necessário para tomar a decisão da viagem, para renunciar aos seus laços familiares, ‘a sua terra natal, etc. É bem possível que, já aí, as forças espirituais e a guia da Virgem Soberana Mãe, que lhe acompanhariam durante toda a sua vida, já fossem operantes, inspirando seus passos e lhe dando forças para seguir e enfrentar as adversidades que ainda estavam por vir.

Ao que tudo indica, tudo isto se passou em 1911, data que Raimundo Irineu Serra embarcou de São Luis para Manaus. Depois de uma passagem breve em Belém, onde chegou a trabalhar de jardineiro para juntar algum dinheiro, foi para Manaus, onde morou aproximadamente um ano.

Nesta época no mundo (ou melhor na Europa, então considerada o mundo), ruía a chamada belle- epoque, a relativa paz do final do século XIX e começo do século XX e as expectativas criadas pelo credo positivista e a crença de que o progresso material traria o aperfeiçoamento moral e o progresso para a humanidade. Já se viam os prenúncios da primeira guerra mundial, engendrada justamente pelos conflitos de posse das nações industrializadas sobre os mercados coloniais.

Manaus porém estava no auge do seu esplendor. Récitas de Caruso e peças teatrais de Sarah Bernahdt, os grandes artistas da época, aconteciam no luxuoso teatro da cidade. Euclides da Cunha, após a reportagem sobre Canudos e a jovem república, iniciava sua expedição ‘a Amazônia, o Inferno ou Paraíso verde, dependendo do ponto de vista.

Seguramente para a burguesia opulenta que freqüentava o Teatro de Manaus, a Amazônia era um paraíso. Já para os imigrantes nordestinos que iam em busca de riqueza, como o jovem Irineu e seus conterrâneos, a situação era bastante diferente. Logo caiam em si do inferno que era para os seringueiro os rigores da empresa seringalista. Que devido a sua alta rentabilidade , depois da eclosão da guerra, impulsionou um setor altamente dinâmico na economia nacional.

Raimundo Irineu Serra, depois deste ano em Manaus, embarcou em um navio em direção ao recém anexado território do Acre. Consta que ainda fez pequenas paradas em Itacoatiara e Eurinepé. Chegou em Xapuri no dia 14 de março de 1912. Permaneceu nesta cidade às margens do rio Aquiry, por cerca de 2 anos. Recém chegado à nova vida de seringueiro Irineu veio a relatar muito tempo depois uma história que revela de forma exemplar o seu caráter. Quando ele chegou de Manaus e chegou no seringal Nossa Senhora do Bom Futuro, para ser destinado a uma das colocações, como era de praxe, o anotador do barracão foi confeccionar a nota das mercadorias e utensílios que ele deveria levar. Conversador, ele perguntou da procedência de Irineu e como ele dissesse ser maranhense, ele logo acrescentou que todos os maranhenses que conhecera eram sabidos e perguntou se ele sabia escrever. Irineu , segundo contou anos depois, para não desmerecer o seu estado, disse que sim. Mas logo depois, quando o homem foi embora, foi acometido de uma crise de consciência, que o levou a pedir ao amigo uma carta de ABC para que ele pudesse estudar e cumprir com o que tinha afirmado.

Em 1914 mudou-se para Brasiléia, perto de Cobija , onde passou a trabalhar no seringal Nossa Senhora do Bom Futuro, próximo à fronteira boliviana.Foi nestas paragens que conheceu aos irmãos Antonio e André Costa, Maranhenses como ele. E a partir destes conterrâneos, foi que o negro, gigante e trabalhador Irineu iria iniciar um novo capítulo da sua história, que o transformaria no Mestre Irineu que todos nós conhecemos e reverenciamos.

Neste ponto da nossa história , os relatos puramente biográficos, de reconstituição dos fatos e incidentes triviais que levaram Irineu ao seu encontro com a ayahuasca, sofrem um divisor de águas. A partir deste encontro, alem da história concreta, entramos também no território do mito. Os relatos vão se agrupando, condensando, passando pelo testemunho de diversas gerações, num processo não isento de contradições.

Os relatos de primeira mãos, as lembranças do próprio Mestre, contadas na intimidade de uma roda de discípulos no alpendre de sua casa, ganham diversas tonalidades pedagógicas ou moralizantes , de acordo com as intenções dos novos interlocutores. A história real é idealizada pela criação anônima e coletiva da fé de milhares de pessoas que conviveram e se beneficiaram da presença de um homem santo. E isto não é nem condenável nem sequer menos real e verdadeiro. Pelo contrário, é graças a este tipo de processo que a trajetória dos grandes vultos encarnados deixam suas sementes para a posteridade. E através desta linguagem, misto de realidade e mito, seus ensinos são mais facilmente compreendidos e suas sementes frutificam .

Anos de formação e mestria

Segundo a tradição, foi portanto a partir de 1912, no mais tardar início de 1913 que Irineu, já entrosado com Antônio Costa, que era regatão e o visitava com certa freqüência em sua colocação, começou a se interessar pela ayahuasca. Provavelmente o início de sua iniciação na bebida teria sido em 1914, quando enfim Antonio Costa o teria levado para uma sessão com um xamã peruano. Depois passaram a tomar o chá juntos na mata, por ocasião das visitas do regatão à sua colocação . Que por sinal era a extrema, ou seja última moradia do seringal. Nesta sequência de trabalhos, onde aconteceu o contacto com Clara, seguiu provavelmente até 1917, quando o então recém iniciado Irineu seguiu para Sena Madureira. Porém antes disto ele conseguiu, graças a sua extraordinária capacidade de trabalho, acertar as contas com o patrão e foi morar na cidade de Brasiléia. Juntamente com Antonio e agora com um novo personagem André Costa, seu irmão e comerciante na cidade. Juntos eles criaram o CRF, que perdurou ainda alguns anos depois da partida de Irineu para Sena Madureira. Em 1921 foi fechado pelas autoridades locais, quando numa onda de perseguição.

A partir dai existe uma linha de histórias que derivam dos relatos do próprio Mestre Irineu aos seus seguidores mais próximos.Que por sua vez já passaram estes relatos para a outra geração já dentro dos processos constitutivos do próprio mito, que não nos cabe diferenciar aqui.

O que queremos enfatizar é a sua trajetória espiritual e o tempo relativamente recente em que esta história se desenvolveu, o que ainda nos permite traçar suas linhas mestras com clareza. Mesmo a ocorrência de algumas historias aparentemente contraditórias sobre o primeiro contacto de Irineu com a ayahuasca, não chegam a inviabilizar a base comum que existe entre elas.

Porém em relação ao momento crucial do encontro de Irineu com a bebida, parece bastante mais factível a versão que conta sua ida em alguma sessão ayahuasqueira onde se chegava até a fazer chamadas do Diabo e onde ele viu as cruzes se multiplicando, do que a outra versão mais lendária, onde ele teria sido iniciado junto a um xamã de nome Crescêncio Pizango. Nesta versão, ele teria obtido o reconhecimento do espírito do curandeiro na cuia onde Irineu e seus companheiros estariam bebendo a ayahuasca. Sem dúvida, ambas as versões passaram a ser citadas posteriormente pelos discípulos do mestre e de alguma maneira representam duas etapas distintas do seu aprendizado e iniciação.

Depreende-se que, posteriormente a este contacto, foi que ele, na continuidade das sessões desenvolvidas junto aos irmãos Costa , ainda cortando seringa na selva, teve o memorável encontro com a senhora de nome Clara, numa noite de lua cheia. Este parece ser , sem dúvida, o fato estruturante , o marco zero da missão do mestre Irineu e o início da Doutrina. Com pequenas variações, os relatos se referem a uma visão que tomou forma corpórea e a partir da qual, o recém nomeado mestre foi recebendo as instruções e aconselhamentos que o fizeram o fundador de uma missão espiritual.

Data dai a entrega feita pela rainha do seu primeiro hino, Lua Branca, quando o exortou a que balbuciasse as estrofes que ela lhe estava inspirando naquele momento e que ele dentro de sua timidez julgava ser incapaz de fazer. Este belo hino abre não apenas o seu Hinário do Cruzeiro, como inaugura a forma de recepção de hinos que é marca registrada de todo o trabalho espiritual que se segue.

Durante as andanças realizadas enquanto era o guarda valores da Comissão de Limites, é bem provável que Irineu tenha obtido novos horizontes em relação à ayahuasca. Pois é seguro que tenham tido contactos com diversas tribos da região ocidental da Amazônia que já faziam uso imemorial da ayahuasca. Alguns resquícios destes contactos podem estar contidos nos hinos que falam dos caboclos, das entidades da floresta e outras chamadas que eram empregadas de forma mais parcimoniosa.

Uma nova etapa se abre na sua história quando ele, voltando de todas estas andanças, senta praça na guarda territorial de Rio Branco.Neste tempo é que conhece seus primeiros companheiros, Guilherme Germano (o maninho, seu colega de farda) e José das Neves. Consta que antes dele iniciar oficialmente seus trabalhos, costumava, nos dias de folga, ir para mata preparar a bebida e realizar sessões com eles.

Apenas em 1931 os trabalhos foram oficializados já na na Vila Ivonete, onde o mestre residia. Temos alguns relatos dos primeiros trabalhos, que eram feitos com 6 hinos do mestre e alguns do Germano, que iam sendo repetidos até o raiar o dia. Outros companheiros chegaram depois como Maria marques, João Pereira e Antonio Gomes.

Quando o mestre se mudou para o Alto da Santa Cruz (localizar e datar), teve início uma nova fase da expansão da Doutrina, com a chegada de novas famílias. A sua fama de curador, rezador e de orientador espiritual foi tomando vulto a ponto dele ser procurado e reconhecido por pessoas influentes da sociedade local, incluindo autoridades do governo e políticos.

Os trabalhos foram sendo aperfeiçoados sempre segundo as orientações que o mestre recebia em suas visões e mirações da rainha. A primeira farda era confeccionada com brim caqui , com dolman e um chapeuzinho tipo turco.

Neste processo de consolidação do seu hinário e do próprio ritual, teve muita importância a figura de D. Percilia, uma espécie de filha adotiva do mestre e que era professora.Era a ela que ele recorria para por em linha de instrução os próprios hinos que recebia.

Inicialmente os trabalhos eram basicamente os de concentração e das cantorias nos dias santos. Depois foram instruídos os trabalhos de cura e a reza do exorcismo.

Já na deecada de 50, depois da separação do mestre da sua terceira mulher, Dona Raimunda (ao que consta devido aos constantes atritos que ele tinha com a sua sogra), ele se casou com a jovem Peregrina Serra.

Pouco depois, empreendeu uma viagem ao Maranhão, como já vimos, para rever os parentes. De lá trouxe seus dois sobrinhos Daniel e João (?) Serra…Ele mesmo contou que durante a viagem, no convés do navio, tomando Daime teve muitas mirações. Teria sido nesta época que recebera o hino Fortaleza e a nova farda que ainda hoje se constitui na farda oficial dos seus trabalhos.

Depois de sua volta desta viagem ao Maranhão e em toda a década seguinte é que ampliou-se consideravelmente o seu círculo de discípulos: Loredo, Chico Granjeiro,Tetéo, Luis Mendes, Sebastião Mota Mota, etc.

Foi durante esta época que também se consolidaram as outras ramificações principais da ayahuasca, como a UDV do mestre José Gabriel da Costa em Porto velho e a Barquinha do mestre Daniel pereira de matos também em Rio Branco. Mas data igualmente desta mesma época o início dos preconceitos e as perseguições contra o Daime. Mesmo com a sua reputação e costas quentes, o mestre foi alvo de intolerância, falatórios e infâmias.

A nova sede foi inaugurada em meados da década de sessenta (precisar). Do final dos anos 60 para o início do 70, o mestre recebeu os hinos novos ou Cruzeirinho. Seu nome era uma referência obrigatória dentro do Estado do Acre e sua Doutrina tinha granjeado, no que pese as eventuais campanhas difamatórias , um reconhecimento por parte de parcelas crescentes da população.

Em 6 de julho de 1971, às 9h da manhã ele faleceu na sua rede. Seis meses antes tinha estado bastante enfermo.Como disse no seu penúltimo hino, os pedidos foram tantos, que ele voltou e obteve uma prorrogação. Nestes seis meses que teve antes de agravar novamente sua enfermidade, marcou o local onde gostaria de ser enterrado. E anunciou de certa forma seu passamento no seu último hino, Pisei na terra fria. O enterro foi um acontecimento na cidade.Ainda em vida, o mestre passou a direção dos trabalhos para o senhor Leôncio Gomes.

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Padrinho Sebastião

Sebastião Mota de Melo, nasceu no Seringal Monte Lígia em 1920, e desde cedo demonstrou propensão para fazer viagens astrais e ter visões dos seres encantados da floresta. Começou sua carreira de curador e rezador nos ermos do Vale do Juruá. Desenvolveu-se mediunicamente na Doutrina Espírita através de seu compadre Oswaldo, que era kardecista. Mudou-se para Rio Branco com a família em 1957, onde levava uma vida de colono e atendia doentes do seu círculo de parentes, compadres e afilhados. Foi um homem simples, de sólida conviccão espírita e trabalhador incansável.

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Discípulo do Mestre Irineu, recebeu deste o dom de expandir o Culto do Santo Daime por todo o país e além de suas fronteiras. Em 1974 mandou registrar sua entidade religiosa e filantrópica, denominada Cefluris – Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra, sociedade sem fins lucrativos responsável pelo trabalho espiritual desenvolvido com a bebida sacramental denominada Santo Daime.

Em 1980 transferiu a comunidade, que vivia nos arredores de Rio Branco, para uma área virgem no interior da floresta, denominada Seringal Rio do Ouro. Em 1982 fundou o assentamento que hoje vem a ser a Vila Céu do Mapiá, onde foi um incansável trabalhador, tanto na parte espiritual como material. Gostava de trabalhar na construção de canoas e fazer grandes caminhadas pela floresta que tanto amava e conhecia. Nos seus últimos anos recebeu carinhosamente os afilhados que chegavam de todas as partes do mundo. Fez algumas viagens ao sul do país para conhecer as igrejas que tinham se formado em torno dos seus ensinamentos. Só nesse momento foi que conheceu o mar, o que muito o emocionou. Faleceu em 20 de janeiro de 1990 no Rio de janeiro, onde se encontrava para se tratar de uma grave doença cardíaca que o acometera há alguns anos.[/read]

Padrinho Alfredo

Alfredo Gregório de Melo nasceu no dia 7 de janeiro de 1950 no Seringal Adélia, Vale do Juruá, sendo o segundo filho de Sebastião Mota de Melo e Rita Gregório.

Ainda adolescente, acompanhava o pai, juntamente com seu irmão mais velho Waldete, nos trabalhos do Alto Santo com o Mestre Irineu. Eram longas caminhadas de quase cinco horas de duração para sair da Colônia Jarbas Passarinho até a Custódio Freire e chegar na sede do Mestre Irineu no Alto Santo.

Quando Sebastião Mota iniciou os trabalhos na Colônia Cinco Mil, com um grupo de famílias de colonos que se agrupara em torno de sua figura carismática, seu filho Alfredo foi um dos seus principais auxiliares, demonstrando desde muito cedo seus dons espirituais.

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Mostrou logo sua capacidade de liderança e dotes administrativos, motivo pelo qual, ainda em vida do seu pai, foi escolhido por este para ser o seu sucessor espiritual, secundado pelo irmão Waldete. Teve também importante papel na construção da comunidade e já na década de 1970, foi alçado no cargo de administrador geral. Foi um dos grandes animadores do ideal comunitário e o braço direito de Sebstião Mota quando da transferência do povo da Colônia Cinco Mil para o Rio do Ouro e dali para o Mapiá.

A partir do começo da década de 80,  Alfredo Gregório esteve à testa da implantação da comunidade no Rio do Ouro, onde esta permaneceu durante dois anos. Foi em sua gestão que se consolidou o crescimento do movimento daimista por muitas cidades brasileiras.

Foi neste período de viagens entre a Colônia Cinco Mil e a implantação do Rio do Ouro, que Alfredo desenvolveu seus dons espirituais natos e consolidou sua liderança espiritual. Data desta época os célebres trabalhos de São Miguel que deram origem ao ritual do mesmo nome, numa época em que se estavam firmando os estudos mediúnicos abertos pelo Padrinho Sebastião e a comunidade da Cinco Mil passava por um grande apuro.

Em 1984, abriu-se a oportunidade para que ele realizasse sua primeira viagem ao sul do país, percorrendo milhares de quilômetros em visita as igrejas que se formavam, a bordo de uma velha Toyota recém doada. Esteve também no INCRA em Brasília levando várias cartas de apresentação e apoio das autoridades, quando da sua visita em 1982 ao Rio do Ouro. Tempos depois, a mando do Ministério do Interior,  técnicos do INCRA voltaram a visitar o Mapiá nos idos de 1986 , reconhecendo a inegável realização comunitária da Vila. Eles opinaram pela necessidade da criação de uma Associação de Moradores ou de uma Cooperativa para respaldar a reivindicação apresentada pelos representantes da comunidade, no sentido de conseguir a legalização das terras em seu nome.

Foi a partir deste parecer que foi a fundada a Associação de Moradores da Vila Céu do Mapiá (AMVCM) em 1987. A Associação, que teve na figura de Lúcio Mortimer um dos seus grandes incentivadores, passou a representar a comunidade, realizar contatos a nível de governo, encaminhar as muitas demandas da população e a administrar o dia-a-dia da vida comunitária, funcionando nos moldes de uma pequena prefeitura.

Carpinteiro de formação, Alfredo deixou sua contribuição em praticamente todas as obras de vulto realizadas na Vila. Em 1987, diante da constatação do crescimento da visitação da irmandade das igrejas do sul, liderou os demais carpinteiros na construção da atual Igreja, uma obra desafiadora diante das precárias condições técnicas do lugar. A igreja deveria abrigar 600 pessoas bailando e  foi erguida em formato hexagonal, com 26 metros de diâmetro, tendo uma coluna central de sustentação  de 17m de altura, constituída de uma imensa peça de castanheira. Atualmente comanda a construção de um novo templo, ainda maior, para acomodar uma irmandade que tende a crescer cada vez mais.

Na década de 90, após a passagem do  seu pai, patrono e fundador da Igreja, Alfredo Gregório assumiu de direito aquilo que já vinha exercendo de fato: a liderança espiritual do movimento do Santo Daime, a vertente originária do tronco do Mestre Irineu Serra e que seguiu o desdobramento dado pela liderança do Padrinho Sebastião. Juntamente com a sua mãe  , a Madrinha Rita e Waldete Mota de Melo, seu irmão mais velho, compuseram o trio que ainda respondem pelo comando doutrinário, assessorados pelo Conselho Superior Doutrinário, escolhidos entre os membros mais antigos e capazes da Igreja.

Em meados dos anos 90 realizou-se a primeira comitiva que percorreu o Brasil e logo em seguida o exterior, levando grupos de músicos e cantores, realizando trabalhos que conquistaram o apreço de buscadores espirituais de todas as partes do mundo. Foi a partir esta época que se formaram os núcleos daimistas na Holanda, Espanha, Itália, Bélgica, Estados Unidos, etc.

Lider espiritual inconteste, conhecedor profundo da doutrina e da floresta que tanto ama, o Padrinho Alfredo acumula o cargo de diretor executivo da ICEFLU, presidente do Conselho Doutrinário da Igreja e secretário geral do INSTITUTO CEFLURIS. Seu maior objetivo agora, além do acompanhamento dos diversos núcleos e igrejas no país e no exterior, é o trabalho voltado para a própria Floresta Amazônica. Buscando realizar o sonho de seu pai, retornou ao seringal Adélia no vale do Rio Juruá, onde ambos nasceram. Aproveitando a rica experiência na gestão do Céu do Mapiá, empenhou-se na construção da Vila Ecológica Céu do Juruá e no melhoramento de outras comunidades nos munícipios de Cruzeiro do Sul e Rodrigues Alves, no Acre, e Ipixúna, no Amazonas.

Seu hinário, denominado de O Cruzeirinho, é uma continuação do Hinário do Justiceiro do Padrinho Sebastião e se caracteriza por uma musicalidade mais moderna e uma inspiração direta na Natureza. Muitos hinos cantam louvores `a Mãe Terra numa linguagem bastante  poética e de grande simplicidade. A última parte do seu Hinário, denominada de a Nova Era, abre esta nova fase na nossa Doutrina e coincide com o início da criação das novas comunidades no Vale do Juruá. Mais recentemente ele abriu um terceiro  hinário denominado “Nova Dimensão.”

Depreende-se dentro desta novo hinário  uma forte ligação entre a mensagem espiritual  e a questão ambiental e planetária, o alerta para a preservação da floresta e uma relembrança constante das profecias acerca dos perigos da reação da Natureza diante da constante ação predatória do homem exercida contra ela.

Atualmente o Padrinho Alfredo divide seu tempo entre sua grande casa no Mapiá que abriga além dos  13 filhos,   netos , noras , agregados e afilhados e suas constantes viagens pelo Brasil e pelo mundo. Juntamente com seus  auxiliares mais diretos, continua em franca atividade  na direção das diversas frentes de trabalho que constituem o movimento espiritual, social e ambiental do Santo Daime. [/read]